Tendências Alimentares [pt]

 

“Eu sou uma mistura daquilo que eu me alimento e daquilo que eu não me alimento” Jean-Philippe de Tonnac

Esta frase ficou como reflexão durante alguns dias após a leitura da revista mais inteligente que já encontrei. A revista é francesa e chama-se “Question de” tradução: “questão de” e é escrita sob a supervisão de Marc de Smedt. Os artigos são compilados em um formato parecido com um mini livro e são publicadas somente quatro (4) vezes ao ano. Os editores visam explorar ao máximo a qualidade em plena consciência do conteúdo, ao invés de quantidade. A cada nova estação do ano é publicada uma edição da revista com um foco  preciso. Nesta última edição, os artigos estão todos relacionados com a exploração infinita do nosso corpo.

“O corpo é o ponto zero do mundo, é aqui onde os caminhos e os espaços se encontram” Michel Foucault

É com esta frase que começamos a refletir em um novo modo de consumo mais consciente. Navegando pelas redes sociais, ainda encontramos muitas pessoas focadas nas últimas dietas, regimes e milagres que estão na moda para ter um corpo “aceitável”. Tudo isto em busca de um ideal, talvez, de permanecer jovem ou de aparentar ser saudável. Mas a que preço? A grande questão que colocamos neste momento é: Estamos entrando em uma nova era voltada a ética do corpo?

Primeiramente, quero deixar bem claro que fazer exercício é fundamental para o nosso corpo, espírito e mente. Depois também quero esclarecer que não estou tomando partido de nenhum grupo alimentar, nem impondo modo de vida a ninguém. Por fim, o que está escrito neste artigo é o meu único e exclusivo ponto de vista baseado nas observações, leituras e discussões que pratico diariamente. Em nenhum momento reflete necessariamente o ponto de vista da revista que citei. Sendo assim, continuemos a pensar…

Durante o meu curso de gastronomia, eu pude observar muito antagonismo neste ambiente, por exemplo: Uma das pessoas que encontrei, tem um corpo “esteticamente” bonito para os padrões de hoje mas quando percebi o modo de consumo da alimentação desta pessoa fiquei chocada. Ela se privava de quase tudo e consumia somente a metade das calorias que são necessárias para o corpo de uma mulher. Ou seja, um consumo completamente defeituoso, que sim, trouxe um bem estar estético mas por dentro seu corpo gritava atenção.

Acredito hoje que o que precisamos em nossas vidas é: EQUILÍBRIO. O tal do equilíbrio, tão simples de escrever e tão mais complicado de exercer, que nós todos sabemos, porque na verdade nosso corpo é inteligente e ele sabe o que devemos ou não ingerir. Para chegar ao equilíbrio do qual eu descrevo aqui, temos que tomar decisões e posteriormente ações que passam pelo caminho do autoconhecimento, realização e plena consciência.

Só podemos atingir estes momentos de equilíbrio, uma vez voltados pra nós mesmos. Como o corpo humano é maravilhoso, somente nós (cada um respeitando a sua estrutura óssea, sua genética e suas histórias de vida) é que sabemos qual tipo de comida faz bem pro nosso corpo e em qual a quantidade ideal. Não existe fórmula perfeita aplicável para todo o mundo. O pensador italiano Guido Ceronetti em seu livro: O silêncio do corpo, Editora Albin Michel, 1984, já dizia: ” tudo o que nós comemos faz bem a nossa saúde”. Permito-me acrescentar que tudo que for consumido de forma equilibrada e que provenha de um lugar onde o respeito pelo que é plantado existe logicamente nos fará bem. Como diz aquele sábio ditado popular que todos nós conhecemos “tudo demais é veneno”.

Hoje a moda é não consumir mais carne, abstrair todo a carne (VPO – viandes, poisson, oeufs – carne, peixes, ovos) animal de nossas vidas e entre carnívoros, vegetarianos e vegetalianos temos que nos enquadrar, mais uma vez, dentro de uma caixinha com um nome específico. São os tais grupos, que fazemos parte desde a escola até o fim dos nossos dias.

O que é importante saber é que aquele alimento que você consumiu é uma energia. Tudo é energia! Se você planta um legume em um local com sol, em um terreno propício (sem poluição), com adubo orgânico, respeitando o seu processo de crescimento, quando este alimento chega no seu prato é uma “vida” que alimenta uma outra vida. A relação do que está no seu prato com o que você ingere deve ser uma relação de amor. Amor próprio! E este amor possui características completamente diferentes de um outro legume que for produzido em larga escala, sendo forçado a crescer rapidamente, com uma luz artificial e talvez dentro da água (como é o caso de alguns morangos). Não se enganem, o gosto do que consumimos e principalmente como nós nos sentimos posteriormente a ingestão deste alimento, vai determinar se você vai ter uma boa ou má digestão. Vai determinar inclusive o seu estado de humor nas próximas horas por vir.

“Entre a sensação de ter fome e de estar saciado, cada um deve poder encontrar a sua fórmula secreta do seu bem-estar, cada um deve encontrar a sua liberdade interior!”

Por isso, acredito que o que é importante não é se você é carnívoro, vegetariano ou vegetaliano, entre outras categorias. O que acredito profundamente é no respeito que aquele alimento tem ANTES (de que forma este alimento foi gerado, alimentado e nutrido?), DURANTE (como foi a “morte” deste animal/vegetal?, ele foi respeitado?) e DEPOIS (como ele é tratado, o corte do alimento foi adequado ao produto?).

Os japoneses possuem as melhores facas do mundo, se você procura uma excelente faca são sem dúvidas as japonesas que você vai comprar. Temos ainda muito o que aprender com esta civilização tão sábia. Você sabe porque? Na verdade, eles acreditam na comida como um alimento SAGRADO e isso é muito importante. Os peixes devem ser respeitados até na hora de serem cortados. Por isso, as facas são as melhores e mais bem afiadas do mundo. Para que eles possam seguir a linha da sua vida e morte. Respeitar o corte feito naquele salmão por exemplo, é agir de forma equilibrada para que aquele peixe não tenha morrido em vão. Porque até a morte deve ser respeitada e agradecida, lindo não é? Profundo como tem que ser. Um chefe francês que admiro muito e que possui essa postura é o Thierry MARX, que procura aplicar muito da filosofia asiática em seus pratos.

Então, vamos sintonizar a nossa rádio interior e consumir consciente procurando saber o ANTES, DURANTE e DEPOIS daquele produto que fez um longo caminho para chegar ao nosso prato, certo?

 

 

 

 

 

 

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